SEMENTE QUE QUER BROTAR - INTERIORANAS (2026)

REALIZAÇÃO
Projeto realizado por meio do Edital de Chamamento Público nº 06/2024 – Produção de Obras, da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG), com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB – Lei nº 14.399/2022).


FICHA TÉCNICA
Produção Executiva: Luiza da Iola
Assistente de Produção: Tacimira Fabiana do Carmo
Assessoria Financeira: Jamila Braga Reis
Assessoria de Imprensa: Ana Paula Santos
Engenharia de Gravação, Mixagem e Masterização: Thiago Guedes
Direção de Arte, Fotografia e Vídeo: Virgínia Dandara
Design Gráfico: Alexandre de Sena
Acessibilidade: Vias Acessíveis; Gustavo Aquino
Interpretação em Libras: Jane Luciana
Transporte: Carlos Roberto de Souza Filho
Hospedagem e Alimentação: Lucília dos Santos Lopes Ribeiro (Dona Meninona); Tacimira Fabiana do Carmo


FICHA TÉCNICA MUSICAL
Direção Musical: Luiza da Iola, Laiza Lamara e Miguel Javaral
Produção Musical: Luiza da Iola, Nívea Sabino e Miguel Javaral
Engenharia de Gravação, Mixagem e Masterização: Thiago Guedes
Composição: Luiza da Iola e Nívea Sabino
Interpretação: Luiza da Iola e Nívea Sabino
Arranjos de Harmonia: Miguel Javaral e Gustavo Cunha
Arranjos de Percussão e Bateria: Aruanã, Laiza Lamara, Julianismo e Valéria Santos
Baixo Elétrico: Miguel Javaral
Guitarra, Flauta e Sintetizador: Gustavo Cunha


 

Release - por Miguel Javaral

“Sem cafuné a vida é seca, sertão de segunda a sexta-feira”. Os versos da poeta da voz Nívea Sabino, natural de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, falam de afeto e ganha-pão, articulando os interiores psicológicos e geográficos (analogia fundamental do seu livro Interiorana e também do projeto musical Interioranas). Mas sertão de segunda a sexta-feira poderia descrever também o processo de gravação deste EP. Quase. Chegamos no domingo ainda. E São Gonçalo do Rio das Pedras, distrito da cidade mineira do Serro, próximo a Diamantina, está na entrada do Vale do Jequitinhonha. Não propriamente sertão, caminho dele. Se Guimarães Rosa for a medida, estávamos mais no território de O Recado do Morro do que no de Grande Sertão: Veredas. Se a medida for a chuva, basta dizer que a van que nos levava para lá atolou na lama da estrada de terra e que só vimos no horizonte as belas pedras da região no último dia de gravação.

“Semente que quer brotar”. Verso que nomeia o trabalho. Tão jovem, tão sábia, nossa amiga Tacimira, que abriu a casa e o coração para que as Interioranas se aquilombassem e gravassem suas canções, conhece bem das sementes. Daquelas que se espalham e ligam famílias, parcerias, comunidades camponesas, comunidades quilombolas. Sementes que o capital não controla. Sementes crioulas. Interioranas também é semente que quer brotar. Quem se encontra hoje na presença da grandeza de Luiza da Iola, Rainha Perpétua do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Carmópolis de Minas, voz que é só força e beleza, pode esquecer que ela, como tudo, já foi semente. Mas eu vi. E sei que as palavras de Nívea Sabino ajudaram a compositora, a cantautora, a artista que está aí agora, a germinar. Querer brotar é teimar em multiplicar a vida frente a todos os empecilhos. E Interioranas, projeto musical surgido na virada de 2018 para 2019, para tocar as canções que Luiza fez partindo dos poemas de Nívea, e que no final daquele ano realizou um primeiro sonho, abrindo o show da inigualável Juçara Marçal no Festival de Arte Negra (FAN) de Belo Horizonte, viu seu crescimento podado pela terrível estiagem que foi o ano de 2020. A pandemia nos dispersou, espalhou os ingredientes desse mexido belorizontino. Luiza voltou para Carmópolis. Gustavo Cunha, guitarrista cuja sensibilidade marcou desde a primeira hora Interioranas, fundador também da banda Iconili, voltou para os lados de Diamantina. No meio-tempo, outras sementes brotaram. A nossa querida percussionista Juliana de Oliveira começou a ser reconhecida como artista plástica, sob o nome Julianismo. Mas o lançamento do primeiro EP teve o sabor agridoce dos eventos remotos, online, sem o calor intenso e o corpo a corpo do show ao vivo das Interioranas.

“Pra Mexer”. A força dessas canções vem, como não poderia deixar de ser, dos tambores. Desde seu primeiro momento sob a regência criativa, precisa e enérgica de Laiza Larama, que temos em comum com o bloco Tapa de Mina e muitas das baterias que fizeram ressurgir o Carnaval de Belo Horizonte, a percussão responde, com a imaginação característica das tradições da música afrodiaspórica, a cada palavra e a cada melodia. A segunda floração das Interioranas, que mostra neste EP seus frutos, se inicia com uma apresentação no Canjerê – Festival de Cultura Quilombola de Minas Gerais de 2023. Foi lá, diante de tanta gente dessas comunidades de resistência que têm a nossa infinita admiração, que a família Interioranas se expandiu, incorporando a serenidade e o cuidado que emanam do nosso novo irmão Aruanã do Amaral Gomes e a alegria explosiva da nossa nova irmã caçula Valéria Santos, que alternam entre si as posições de bateristas e percussionistas.

“Feijão gostoso, conversa boa”. E queijo, café e, para os assim inclinados, cachaça. E muito trabalho e dedicação. Foi bonito de ver e até poder ajudar um pouco, na grave função de baixista, estas canções amadurecerem e serem colhidas pela captação sonora focada de Thiago Guedes, durante aqueles dias chuvosos de dezembro na casa cujos fundos davam para o Rio das Pedras. “Sem medir fala”, com toques de hip-hop e terreiro, continua a linha mais explicitamente política da maior parte das canções do primeiro EP. Interioranas é um projeto liderado por mulheres negras queer. Tem, portanto, lado e mensagem a entregar. Como a poesia de Nívea Sabino (que inspira tudo o que Interioranas produz), também traz, porém, aquilo que nos faz desejar que a vida possa ser boa para todas, todes e todos. O “sabor da fruta” descrito com minúcias sensórias no pagodão baiano afrofuturista de “O cheiro da mexerica”. A alegria quase paradoxal da paixão, tema do axé meio retrô/meio indie de “Meu dengo”, que nos faz “curtir garoa” e até “sorrir à toa” mesmo (pesadelo cotidiano das classes assalariadas, de todos que moram longe) tendo perdido o ônibus. O amor que, como o pequi, atrai e repele, machucando com seus espinhos quem se mostra muito afoito em deleitar-se, como ouvimos no blues do sertão, ou talvez xote spiritual, “Amor de Jatobá”, que encerra o EP. As fotos e vídeos cheios de cor e carinho que Virgínia Dandara registrou naquela semana talvez ajudem a explicar o que se passou. Mas é no som destas quatro faixas que se encontra o aroma e a polpa dos frutos daqueles dias. “De gomo em gomo, não há saída, só resta o cheiro da mexerica”.

Miguel Javaral

São Paulo, 2026

P.S. O tropeiro de feijão guandu (plantado no quintal) feito pela Dona Meninona é uma das maravilhas do universo. Aliás, Dona Meninona é uma das maravilhas do universo. Quem estiver em São Gonçalo do Rio das Pedras precisa conhecer. Pode inclusive aproveitar e mandar para ela beijos e abraços das meninonas e meninões de Interioranas.

 

01 - O CHEIRO DA MEXERICA

Composição: Luiza da Iola e Nívea Sabino 
Intérprete: Luiza da Iola e Nívea Sabino 
Arranjo harmonia: Miguel Javaral e Gustavo Cunha
Arranjo percussão e bateria: Laiza Lamara e Julianismo
Baixo elétrico: Miguel Javaral 
Guitarra: Gustavo Cunha 
Congas: Laiza Lamara 
Timbal: Laiza Lamara
Bateria: Valéria Santos
Bacurinha: Aruanā 
Surdo: Julianismo
Sintetizador: Gustavo Cunha 

Canto:
O cheiro
O cheiro, 
que cheiro, que cheiro,
que cheiro, que cheiro,
cheiro…

da mexerica, cacacacacaca
da mexerica, cacacacacaca

O cheiro

Sedentos dedos 
lhe puxam a vida
Cada gomo à mostra
uma ferida
As mexericas
espirram lágrimas de sumo
a cada casca
em despedida
E à medida (2x)

Poema:

Sedentos dedos 
lhe puxam a vida
Cada gomo à mostra
uma ferida
As mexericas
espirram lágrimas de sumo
a cada casca
em despedida
E à medida
em que se descasca
o suor da fruta
encharca o corpo
que sente o suco
escorrer à boca
por mordidas findas
De gomo em gomo
não há saída
só resta o cheiro
da mexerica

Canto:

De gomo em gomo
não há saída
só resta o cheiro, que cheiro,
que cheiro, que cheiro, 
que cheiro, que cheiro,
que cheiro, cheiro (2x)                                           

da mexerica cacacacacacacaca
da mexerica cacacacacacacaca

da mexe. da mexe
da mexe. da mexe 
da mexe, da mexe 
da mexe, da mexe …

pra mexe, pra mexe
pra mexe pra mexe.
pra mexe, pra mexe
pra mexe, pra mexe …

Sedentos dedos 
lhe puxam a vida
Cada gomo à mostra
uma ferida
As mexericas

Poema:

espirram lágrimas de sumo
a cada casca
em despedida

 

02 - MEU DENGO


Composição: Luiza da Iola e Nívea Sabino 
Intérprete: Luiza da Iola e Nívea Sabino 
Arranjo harmonia: Miguel Javaral e Gustavo Cunha
Arranjo percussão e bateria: Laiza Lamara
Baixo elétrico: Miguel Javaral 
Guitarra: Gustavo Cunha 
Congas: Laiza Lamara 
Timbal: Laiza Lamara 
Efeitos: Valéria Santos
Bateria: Aruanā 
Surdo: Julianismo 

 

Canto:

Após o beijo
não tem outro jeito
senão meu dengo
de te olhar
de te encostar
acariciar
e enxergar no olhar
que dia lindo
que cor mais viva
feijão gostoso
conversa boa
quero outro beijo
depois mais outro
perder o ônibus
sorrir à toa
sentir garoa
com as mãos laçadas
prometer nada
doar-se à amada

Meu dengo
Meu dengo
Meu dengo
Meu dengo

aiai meu dengo
oioi meu dengo
aiai meu dengo
oioi meu dengo
oooo….

Poema: 

Após o beijo
não tem outro jeito
senão meu dengo
de te olhar
de te encostar
acariciar
e enxergar no olhar
que dia lindo
que cor mais viva
feijão gostoso
conversa boa
quero outro beijo
depois mais outro
perder o ônibus
sorrir à toa
sentir garoa
com as mãos laçadas
prometer nada
doar-se à amada

Canto:

Após o beijo
não tem outro jeito
senão meu dengo
de te olhar
de te encostar
acariciar
e enxergar no olhar
que dia lindo
que cor mais viva
feijão gostoso
conversa boa
quero outro beijo
depois mais outro
perder o ônibus
sorrir à toa
sentir garoa
com as mãos laçadas
prometer nada
doar-se à amada

Meu dengo
Meu dengo
Meu dengo
Meu dengo

aiai meu dengo
oioi meu dengo
aiai meu dengo
oioi meu dengo
oooo….

Meu dengo

 

03 - SEM MEDIR FALA

Composição: Luiza da Iola e Nívea Sabino 
Intérprete: Luiza da Iola e Nívea Sabino 
Arranjo harmonia: Gustavo Cunha e Miguel Javaral 
Arranjo percussão e bateria: Laiza Lamara
Baixo elétrico: Miguel Javaral 
Sintetizador: Gustavo Cunha 
Flauta transversal: Gustavo Cunha 
Congas: Laiza Lamara 
Efeitos: Julianismo
Agogo: Julianismo 
Bateria: Valéria Santos
Surdo: Aruanā 
Caxixi: Aruanā 

Canto:

Digo que a revolução
será debochada
Segue comigo
vai ser rimada
poetizada.
rimada, 
poetizada,
 debochada (2x)

Te apresento em versos
- a maior luta armada -
Negra dominando a fala e a palavra
por essa eu sei
Que cê não esperava (2x)

Fez de mim escrava 
Fez de mim escrava 
Filha da empregada
Fez de mim escrava 
que procurava vaga
Fez de mim escrava 
na escola "fraca"
Fez de mim escrava 
que não era paga
Fez

Vim dizer que você fraquejou no plano
de oprimir a negrada

Lá na minha quebrada
a gente rima "favelada" com
Lá na minha quebrada
a gente rima "favelada" com
Lá na minha quebrada
a gente rima "favelada" com
" empoderada"
" empoderada"
" empoderada"

Negro é o poder!

Poema:

Sapatão é as minas
que irão te mostrar
que seu "liliu" na mão
diante do meu "não"
é uma piada

Ei, macho alfa!
- sofre não!  Sofre não...!

Nenhuma mulher mais
independente da cor
ficará calada
enquanto houver outras violentadas

Violeta é a cor
que marca a luta
de resistência ao rocho
que ocê deixou

Preta nagô, nagôôô...
Vamos dizer do tanto
que Dandara lutou

Cê acha mesmo que só barbado
resistiu ao escracho!?

Eu sangro!
- Faça-me o favor!

Não passará, enquanto eu não passar!
Passar gritando,
denunciando
o mundo tosco
que nós criamos

A cada uma hora e meia
uma mulher é morta

Minha poesia
não mede a fala
que põe na cara:

O Brasil é o país que mais mata:
mulher preta
transsexual
e viadA

Canto:

Não passará, enquanto eu não passar!
Não passará, enquanto eu não passar!
Não passará, enquanto eu não passar!

Passar gritando,
denunciando
o mundo tosco
que nós criamos

Lá na minha quebrada
a gente rima "favelada" com
Lá na minha quebrada
a gente rima "favelada" com
Lá na minha quebrada

a gente rima "favelada" com

" empoderada"
" empoderada"
" empoderada"

Negro é o poder!

Negro é
Negro é 
Negro é 

O poder
O poder
O poder

O poder!

 

04 - AMOR  DE JATOBÁ

Composição: Luiza da Iola e Nívea Sabino 
Intérprete: Luiza da Iola e Nívea Sabino 
Arranjo harmonia: Miguel Javaral e Gustavo Cunha
Arranjo percussão e bateria: Julianismo, Aruanā e Laiza Lamara
Arranjo vozes: Aruanā e Julianismo
Coro: Gustavo Cunha, Tacimira Fabiana do Carmo, Miguel Javaral, Julianismo, Valéria Santos, Laiza Lamara, Aruanā, Nivea Sabino e Luiza da Iola
Baixo elétrico: Miguel Javaral 
Guitarra: Gustavo Cunha
Congas: Julianismo
Triângulo: Valéria Santos 
Efeitos: Laiza Lamara e Julianismo
Bateria: Aruanā 

Canto:

Sem cafuné a vida é seca
sertão de segunda a sexta-feira
Sem cafuné a vida é seca
sertão de segunda a sexta-feira (2x)

Comi pequi pra te amar
um cheiro de jatobá
aroma fez te afastar
as andorinhas do último verão
quiçá irão voltar
as andorinhas do último verão
quiçá irão voltar

semente que quer brotar

Poema:

Era mais confortável
eu me sentia bem
quando assumi o ato
sou eu o salto
me ergo com os pés descalços
sentada, gente de vida derradeira
ser forte é subir e descer ladeiras
sem cafuné a vida é seca
sertão
de segunda a sexta-feira
comi pequi pra te amar
um cheiro de jatobá
aroma fez te afastar
as andorinhas do último verão
quiçá
irão voltar
semente que quer brotar
você mente
também se afoga
quem aprendeu a nadar
mais valem as lendas
que ouvi contar

Canto:

Você mente
também se afoga
quem aprendeu a nadar
mais valem as lendas
que ouvi contar

Sem cafuné a vida é seca
sertão de segunda a sexta-feira
Sem cafuné a vida é seca
sertão de segunda a sexta-feira 

Sem cafuné a vida é seca
sertão de segunda a sexta-feira
Sem cafuné a vida é seca
sertão de segunda a sexta-feira